Da sujeição à ação: TV LIVRE

Levando em consideração dois aspectos que constituem um povo no ato da sua escritura, o pedagógico e o performativo, precisamos pensar sobre qual sociedade está sendo narrada e ensinada pelas grandes redes de televisão e, como contradição necessária, fomentar a performatividade na reapropriação dos meios e reescritura do presente, como reação organizada e necessária ao narrador totalitário.

A PEDAGOGIA

A intervenção direta do aparelho burocrático do Estado sobre o uso das tecnologias de comunicação, principalmente no que diz respeito aos meios de radio e teledifusão, sempre obedeceu a um projeto fundamentalmente econômico desde a emergência da Televisão no Brasil. O resultado é a restrição na participação efetiva da difusão do som e da imagem, sendo o uso privilegiado dos meios sempre o estímulo para o consumo - instituições e grupos econômicos trabalham conjuntamente no famoso sonho de modernização da sociedade, a partir de uma pedagogização que é o uso dominante dos meios para produção de sentido. Sociedade moderna significando, nesse sentido, uma sociedade moldada para o desenvolvimento de um modo de vida lucrativo à indústria de bens, tendendo à concentração de capital e homogeneização cultural.
É nesse sentido que as grandes redes de televisão exercem um poder absurdo. Poder que se vale da tecnologia, da linguagem e do aparelho político como ferramentas para a construção de lugares autorizados de significação - o espectador é interpelado na sua intimidade sem conhecer as circustâncias de produção da mensagem que recebe e que constrói sua representação de mundo. O sujeito é excluído da troca dialogal.
Quando milhões de pessoas assistem a um programa específico de televisão é estabelecida uma rede nacional de imaginários e a TV narra a sua ficção totalitária. Essa cadeia pode ser pensada como uma comunidade imaginária (Andersen, 1983) que é fruto da simultaneidade na retransmissão do sinal. O sistema de comunicação formado pelas grandes redes existe como parte íntima e essencial da estrutura nacional que permite ao indivíduo ver-se no contexto de uma unidade.
A Rede Globo participa ativamente na formação de uma Cultura Nacional, criando zonas de resgate e esquecimento; narra o Brasil de forma sobrepujante. Ela favoreceu e foi favorecida pela formação do Estado Moderno no Brasil, de forma que as instituições políticas e jurídicas atuaram como instrumentos para a consagração desse Poder; favoreceu a integração territorial necessária para o crescimento do mercado interno, graças à formação das grandes redes de retransmissão.
Nos últimos anos, mesmo com o barateamento das tecnologias de difusão analógica, o poder político deixou de estimular a livre informação, além de atravancar o processo de novas concessões, estabelecendo rígida legislação, reservando à minorias hegemônicas o direito de narrar a sociedade e ensinar à maioria sobre como se deve viver.

A PERFORMANCE

Ao longo do movimento de escritura da sociedade, articulam-se antagonismos: opressões e resistências. É certo que há uma rede formada para o estabelecimento e a manutenção dos padrões de razão, justiça verdade e beleza; mas também é certo que na vida cotidiana o processo contínuo de significação permite a intervenção performativa das pessoas; a prática política será fundamentada na ambivalência que emerge da contestação desse narrador autoritário - daí que interrompemos a representação da totalidade.
Projetos de Tv's Livres são iniciativas de apropriação desse meio técnico que desprezam o aparato burocrático responsável pela exclusão. São forças que atuam para significar identidades marginais e interesses desiguais, dando-se o direito de narrar apesar da insistência em se limitar a maioria ao mero espetáculo. É prática de desobediência civil. Organizações de pessoas interessadas na apropriação do conhecimento tecnológico e construção dos instrumentos necessários para a transmissão de som e imagem no espectro de telefreqüência, remodelando a relação da coletividade com o medium, para além da sujeição. Trata-se de ocupar as brechas para construir novas formas de se relacionar com os meios de comunicação; desvios resultantes do paradoxo no senso da representação (por um lado o Estado e a Lei e, por outro, a predicação pessoal). Transmitir TV, apesar das instituições; apropriando-se do meio a partir do resgate da autonomia e do direito ao diálogo. Trata-se de lembrar o que o Mainstream Midiático esquece de dizer, resgatando o que é silenciado, o "outro" que está lá apesar da ilusão do "mesmo"; fazer Tv Livre é, portanto, um exercício de afirmação de identidades. A Tv Livre é o corpo técnico e coletivo necessário para que a voz que está às margens narre e reconstitua no presente a lembrança diante de um arsenal monstruoso para o silenciamento. A Tv Livre reorganiza o relacionamento com o meio de comunicação justamente porque direciona-se aos propósitos internos de autonomia e exercício da liberdade, sem desejar uma audiência de consumidores mediados.

Angela M. Meili

* reflexões ligadas ao Projeto de Pesquisa A Televisão e a Nação Narrada em desenvolvimento no Instituto de Institutos da Linguagem/unicamp