Televisão de Baixa Potência

Televisão de Baixa Potência (VHF)

Cicilia M.Krohling Peruzzo

São transmissões televisivas na freqüência VHF (Very High Frequency)[1] de aproximadamente 150 watts, que atingem comunidades específicas. Não está regulamentada em lei, portanto são transmissões clandestinas. Entram no ar em caráter ocasional, até pelos riscos decorrentes de sua ilegalidade.

Trata-se de experimentos que objetivam exercitar a liberdade de expressão e contestar o sistema de concessão de canais de televisão no país, bem como sua programação essencialmente marcada por interesses mercadológicos. E, em casos específicos, objetivam democratizar técnicas de produção e transmissão televisiva junto a grupos populares. Em última instância, o que se pretende é forçar mudanças na legislação dos meios de comunicação de massa no país.

Na mesma época em que estavam surgindo várias emissoras de rádio livres (meados da década de 1980), também chamadas de piratas ou de clandestinas, pretendeu-se colocar no ar também uma TV Livre (ou pirata) na freqüência VHF. Com transmissor de sinal de 100 watts de potência e gravações já feitas, estava tudo pronto para ser inaugurada no dia 15 de agosto de 1985, na cidade de Sorocaba – estado de São Paulo. No entanto, uma reportagem sobre tal acontecimento, neste mesmo dia, publicada pela Folha de São Paulo, fez com que a equipe adiasse o pleito por que o DENTEL – Departamento de Telecomunicações, órgão fiscalizador das telecomunicações na época, ficou de prontidão na área.

Diz a reportagem: “a equipe da emissora pirata TV Livre, de Sorocaba, improvisou a gravação com um equipamento amador e a levará ao ar, entre hoje e amanhã, a partir das 6 h” ... (TV Pirata..., 1985, p.40).

No dia seguinte, 16 de agosto, o mesmo jornal noticia: “Dentel age; TV Livre não vai ao ar” (p.46).

O objetivo básico dos protagonistas da TV Livre era criticar a obsolescência da lei de telecomunicações e forçar mudanças na legislação de modo que fossem permitidas transmissões locais e comunitárias.

A primeira transmissão televisiva pirata, em VHS, veio a ocorrer, aproximadamente, um ano depois. No dia 27 de setembro de 1986 entrou no ar a TV Cubo, às 18:45 h., pelo canal 3, na região do Butantã, zona sul da cidade de São Paulo. Antes de começar o programa a TV Cubo fez uma interferência no som dos canais 2 (TV Cultura) e 4 (SBT) anunciando o seguinte: “tele - humanos em geral, boa noite. Pedimos desculpas mas estamos invadindo o ar de seu lar. Pedimos que sigam atentamente as nossas instruções. Está entrando no ar a TV Cubo. Mude para o canal 3 para você sacar que apesar da poluição há muita vida no ar” (Serva, 1986, p.27).

Em seguida foi emitido um programa de 13 minutos (e logo a seguir reprisado); um telejornal não convencional com sátiras e uma enquete de rua que perguntava “se você tivesse que chutar alguém, quem você chutaria?” (Serva, 1986, p.27).

O transmissor, com um watt de potência, cobria apenas um raio de 1,5 km. A TV Cubo foi protagonizada pelas mesmas pessoas que criaram a Rádio Xilik, que transmitiu do bairro Perdizes, em São Paulo, capital.

Em 1º de abril de 1987 a Folha de São Paulo volta a anunciar a inauguração de equipamentos novos[2] pela TV Cubo e que desta vez entraria no ar, às 20 horas, desse mesmo dia, pelo canal 3, na região de Santa Cecília, zona central da cidade de São Paulo (Agostinho, 1987, p.B.1).

O Rio de Janeiro também viveu experiências de transmissão em VHS. Teria funcionado a TV Lama, na Baixada Fluminense, e outras como: A TV Vento Levou teria entrado no ar em 1998, durante a campanha para eleições municipais, para vários bairros da zona sul, como a Gávea, Leblon, Ipanema e Copacabana. Em 1990, no Dia Mundial de Prevenção da AIDS, os moradores e médicos do Posto de Saúde da favela da Rocinha transmitiram em VHS, pela TV Canaibal, programa sobre a prevenção da AIDS. A TV 3Antena, canal 8, cujo episódio marcante foi a prisão, pela Polícia Federal, das pessoas que estavam assistindo a sua transmissão pirata em um bar (Planalto) no bairro do Flamengo, no dia 10 de julho de 1990 (Amaral, 1995).

Foram experiências que funcionaram de forma pouco estruturada e levadas a cabo por entusiastas da comunicação por meios eletrônicos e da democratização da mídia. Não tinham uma periodicidade regular de transmissão como forma de despistar, ou dificultar, sua localização pelos órgãos fiscalizadores do Governo. Apesar dos riscos demandados pelas transmissões ilegais , tais experiências ousaram criticar o sistema televisivo vigente no país demonstrando possibilidades de uso social do mesmo.

Entre as experiências que tinham como objetivo principal a democratização das técnicas de produção e transmissão de sons e imagens no sistema (no sistema VHF) para grupos populares, destaca-se a oficina de capacitação em comunicação comunitária dentro do Projeto CODAL – Comunicação para o Desenvolvimento da América latina, realizado no Brasil, através da ABVP – Associação Brasileira de Vídeo Popular, em pareceria com a TV Sala de Espera. A experiência ocorreu na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, no período de 26 de maio a 4 de junho de 1995.

Segundo Júlio Wainer (1995, p.1), professor do Projeto CODAL, “ foram realizados e transmitidas através do canal 8, na freqüência VHF, uma série de programas para a população local. A experiência aconteceu no extremo nordeste da capital mineira e alcançou um raio de 6 km, com um transmissor de 100 watts. Diariamente era produzido um noticiário de aproximadamente 45 minutos, com 14 quadros. No espelho do noticiário constavam notícias locais, matérias de comportamento, experiências coletivas de sucesso em Belo Horizonte e fora, quadros musicais, culturais, culinária, humor, matéria infantil e juvenil, e destaque para discussões sobre implantação de um aterro sanitário na região. Durante 3 dias permanecemos 12 horas no ar, com programação de cunho social vinda de várias partes do Brasil”.

Participaram do projeto 35 (trinta e cinco) pessoas vindas de 12 estados do Brasil, inclusive do estado sede, que desenvolveram uma TV Comunitária, a TV Beira Linha, em parceria com a população local.

Além da produção e reprodução de programas a equipe procurou também, acompanhar a recepção dos programas transmitidos. Pesquisou residências e os postos de recepção coletiva (bares escolhidos como pontos de referência para quem não recebia bem o sinal) para levantar pautas, avaliar a aceitação da programação e ensinar as pessoas a sintonizarem o canal 8.

Consciente da efemeridade de sua presença no local e da importância da formação de agentes locais para o desenvolvimento da comunicação comunitária com autonomia, a equipe procurou envolver os moradores da região nas atividades da oficina. A ancoragem, parte das reportagens, atuação em novelinhas e as pesquisas de recepção foram feitos por moradores da localidade.

Entre suas principais características estão:

. Participam do espectro televisivo da TV aberta.

. Suas transmissões são ocasionais, à revelia da lei.

. Simbolizam um protesto contra o sistema de concessão de canais de televisão e
inexistência de canais de baixa potência.

. Procuram democratizar técnicas de produção e transmissão audiovisuais.

. Atinge um público local de amplitude restrita a aproximadamente 1,5 quilômetros.

. Programação alternativa a dos canais convencionais, podendo tanto ser de cunho
irreverente, como educativo e cultural.

. Gestão a cargo de grupos autônomos sem mecanismos de representação de instituições
locais.

[1] - A mesma da TVs abertas, tais como TV Globo, TV Record, SBT etc.

[2] - A aparelhagem da TV Cubo, que continua alcançando 1,5 km, é composta de 1 antena transmissora direcional, 1 booster WCT4, 1 amplificador de sinal WADT e 1 videocassete.